22 outubro 2009

#6

Um maço de Winston está ao lado dum poster do Cristiano Ronaldo dobrado em quatro partes desiguais. O resto do pão descansa, esboroado, sobre uma mesa onde não foi estendida uma toalha e junto a uma navalha muito velha e dobrada sobre si mesma. Dois cães de louça descansam na sala ao lado, quase espreitando para adivinhar ao que vêm estes dois estranhos. Ao lado de um retrato muito velho de uma senhora com uma trouxa na cabeça, alguém pendurou a imagem de um oragotango, um pedaço de papel velho recortado de uma revista. O silêncio que se faz sentir lá fora é quase sepulcral e, não fossem as tímidas indicações na estrada até aqui, ninguém diria que tínhamos atravessado a fronteira e estacionado em plena raia espanhola.

É como se o sítio tivesse sido, desde tempos imemoriais, dividido por uma linha de fronteira imaginária. Os caprichos da mão humana são os responsáveis pela separação (aqui quase imperceptível) entre Portugal e Espanha, oficial e pormenorizadamente cartografada mas fisicamente pouco compreensível: o mesmo calor de um e de outro lado da fronteira, o mesmo ar abafado que desce em direcção ao alcatrão e que ocupa todo o espaço, impedindo-nos de respirar, o mesmo solo seco e dourado rodeando casas abandonadas e entregues à ruína. Apenas a (maior) largura da estrada que agora percorremos nos lembra que chegámos a Espanha porque partilhamos tudo o resto – as serras e os barrancos, os pinheiros ainda por crescer, as ribeiras caprichosas, o mesmo grau de isolamento.

O sítio nasceu em torno de um cruzamento ou este foi o resultado do cauteloso juntar de casas: não serão mais do que umas dez, se contarmos com o café quase novo em folha, dispostas de forma algo irregular e terminado num inexplicável parque infantil com vista para mais serra. Rompendo o branco da cal destas paredes, uma ou outra oliveira que se atreveu a permanecer, um canteiro viçoso e encantador que parece ter crescido numa zona húmida e enxertado nesta terra sequiosa. As flores são tantas e tão mimosas que é impossível não parar durante breves segundos observando, perguntando em voz baixa como foi possível vingarem num solo aparentemente estéril. A vegetação completa-se com as heras de plástico que cobrem as paredes do novo café, criando a ilusão da vivacidade aos condutores que se decidem por este lado do cruzamento. Camuflada entre vasos e as grades de uma varanda, está sentada uma senhora idosa, vestida de preto, que nos acompanha quase sinistramente com o olhar. Da varanda e da nossa vigilante não se solta um único som, um supiro mais profundo, um grito de uma televisão ignorada, um desabafo motivado pelo calor.

Dizem-nos numa tasca, em que a entrada é coberta por uma latada que tenta simular a frescura da sombra noutras paragens, que é mesmo a última casa, que podemos entrar, já que a porta nunca está fechada. Vai o neto à nossa frente, empolgado com as visitas, portador das notícias. Quando desviamos as fitas de plástico da entrada, ainda a conseguimos surpreender, minúsculo corpo gasto pela idade coberto pelo luto ainda fresco, os cabelos brancos num doce desalinho de quem não tem tempo para se preocupar com miudezas. Fala muito alto, como se a idade lhe tivesse roubado também a astúcia de uns ouvidos em sentido, habituada a fazer-se anunciar entre penhas e barrancos isolados de outras vozes e de quaisquer vestígios de civilização. Enquanto falamos sobre o grande fogo que lhes consumiu os haveres e que mudou a vida de outras gentes que faziam gosto em viver perdidas serra adentro, os pássaros que guarda em gaiolas perto da porta lembram-nos da sua presença. São umas quatro gaiolas, desorganizadas sobre a máquina de lavar roupa, exactamente em frente a alguidares empilhados onde descansam alguns tomates directamente nascidos deste chão.

O neto e a avó já não conseguem escolher entre o português e o castelhano. O que falamos naquela cozinha despojada de decoração mas transbordante de utilidade é um dialecto de fronteira, uma mistura de vocábulos do país onde os hospitais são coisa de gente séria, onde o rigor não é confundido com falta de vontade e as palavras do país que, incapaz de olhar para dentro de si mesmo, enviava enlatados às vítimas dos fogos, homens e mulheres com mais de sessenta anos, habituados a viver do que a terra lhes dava e incapazes de manejar um abre latas. É quase natural que ela nunca tenha pensado em regressar, estando sob a alçada de um sistema que não esquece mesmo as aldeias mais recônditas e onde as relações são, muitas vezes mais humanas.

Ela insiste em oferecer-me um vaso onde repousa um repolhudo manjerico e mostra-me, ingénua, como posso absorver-lhe o cheiro. Nós decidimos partir, para que o filho possa também almoçar tardiamente, antes de pegar na mota e se fazer de novo à estrada, procurando a próxima festa de Verão. Quando os nosso pneus voltam a pisar o nosso país, a solidão desta gente continua a mesma, as estradas de terra batida continuam desertas e as pontes sobre as ribeiras tranquilas. E eu olho para trás, ainda coma sensação de que há Alentejo também para lá daquela fronteira.

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