Arranjei superstições para todos os momentos em cruzo pontes sobre ribeiras, para as rectas intermináveis rodeadas de mármore e de urzes, para os coelhos que vêm às vezes espreitar e arriscar a vida. Admiro-me sempre com alguém que caminha no escuro, sem reflector nem nenhum sinal que possa denunciar a sua presença, tomando a Lua como seu único guia. E cada vez tenho mais pressa, e a cada retorno mais me afasto do meu local de partida, olhando-me fora do meu corpo, uma mulher pequena num instável banco de pele. Já atravessei tempestades negras e já me furtei a raios que terminariam apenas a escassos metros de mim, já senti o irrespirável calor e já me vi debaixo de assustadores bátegas de água que me faziam temer o dilúvio.
Mas no caminho vejo charcas e vacarias abandonadas, pombais onde retornam os bichos de competição, aquele verde que brota da terra de mansinho quando chega o frio, riachos que serpenteiam entre campos de trigo, bancas de espargos e melancias onde o tempo se dispersa, pinheiros mansos carregados de pinhas, vinhas acobreadas a perder de vista, velhos na soleira da porta ou encostados a cajados e tudo fica suportavelmente mais perto. São milhares de metros em meditação, em arrumação de ideias e depois finalmente cheguei e todos os outros caminhos ficam para trás.
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